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Ele não me escuta!

Um casal começa a conversar. Estão discutindo algo importante, falando sobre seus sentimentos, seus planos para o futuro, suas dúvidas. Tudo vai bem até que, de repente, os olhos do homem parecem estar fixos em algum ponto além do horizonte, sua boca está entreaberta, o corpo permanece imóvel. Ele não está mais ali. Você se desespera, pensa que ele está tendo um derrame ou algum tipo de convulsão. Quem sabe ele foi abduzido por alienígenas e ali ficou só a casca do cara que você chama de “meu amor”?

Não, não é nada disso. É muito pior. É o fenômeno que mais nos deixa irritadas e frustradas. Quando imaginávamos que a conversa estava fluindo muito bem e que ele iria abrir o coração e nos contar seus traumas de infância, ele simplesmente tem um branco mental. É o que o psicólogo e escritor David Clarke chama de “zona de ausência mental masculina”.

Ele entra nesse espaço de ausência porque ele não está acostumado a conversar diligentemente sobre suas questões internas. Quando o assunto começa a ficar íntimo demais, complexo demais em termos emocionais, você corre o grande risco, querida, de ver o seu gato se transformar em um vegetal.

Claro que, se os olhos esbulhados dele durarem mais de meia hora e no canto de sua boca começar a escorrer um fio de saliva, por favor chame a ambulância, porque deve ser mesmo um avc, o que vai te deixar ainda mais irritada, porque aí sim, vai demorar muito mais do que você imagina para terem uma conversa até mesmo sobre se vai chover ou não, quanto mais uma profunda discussão sentimental.

O problema é que quando o cara entra nessa tal “zona de ausência”, nós mulheres, ansiosas por natureza, assimilamos isso como um desrespeito, como se ele quisesse se afastar de nós. Dizemos: Você não está me ouvindo! E muitas vezes estamos certas, ele não está ouvindo mesmo! Porque em termos de conversas íntimas sobre sentimentos e expectativas quanto ao relacionamento podemos fazer a seguinte comparação:

As mulheres são um processador de alimentos de última geração. Quando queremos discutir a relação, vamos jogando os legumes no processador, todos ao mesmo tempo, e ainda esquecemos de tampá-lo. E o nosso querido companheiro é como um cozinheiro idoso, com artrite nas mãos. Ele quer acompanhar o nosso processamento de legumes, mas o processador é rápido demais! Pedaços de alimentos começam a voar pela cozinha inteira! Como não quer ser atingido por um pepino voador, ele foge para um lugar seguro! Não estou dizendo que os homens não consigam raciocinar rapidamente. Eles conseguem sim, mas na maior parte das vezes, a respeito de coisas práticas.

Então, quando estamos falando sem parar, dizendo o que sentimos, perguntando o que eles sentem e como eles se sentem a respeito do que acabamos de falar, eles simplesmente fogem. O pensamento dele foge, não porque despreze nossa necessidade de comunicação, mas porque ele precisa de tempo para processar tudo que foi dito.

Então, ele se cala. E é uma heroína a mulher que consegue ficar sem perguntar: “O que você está pensando?” É muito provável que ele responda: “Nada.” Mas, sinceramente, não acreditamos que um ser humano possa estar parado, olhando para o infinito ou assistindo Simpsons e pensando em... nada!

Ainda segundo o Dr. David Clarke, seria muito melhor se eles tivessem uma resposta pronta para essa pergunta. Ele até sugere algumas opções:

 - Estava pensando na cura para o câncer.
 - Estava imaginando como posso contribuir para a paz mundial.

Ou, melhor ainda:

 - Engraçado você perguntar querida, estava exatamente pensando em como você é linda, meu amor!

Acontece que eles podem mesmo não estar pensando em nada. Não porque queiram nos fazer arrancar os cabelos. Mas por um simples motivo: homens e mulheres pensam de maneiras diferentes. As maneiras como fomos acostumados a pensar são diferentes. É aquela velha história: quando crianças, as meninas brincam de boneca, de escolhinha, enquanto os meninos brincam de carrinhos e de futebol de botão. (Bom, pelo menos quem foi criança na década de 80, vai concordar comigo.) Isso mostra algo bem óbvio: desde meninas estamos mais acostumadas a lidar com seres humanos, com sentimentos, com necessidades humanas e não com máquinas de controle remoto que batem na parede e voltam.

É por isso que estamos constantemente em contato com nossas emoções, dores, pensamentos, sentimentos, reações, esperanças, sonhos. Nosso mundo interno está na superfície, pronto a ser dissecado, discutido e entendido.

Mas eles, os nossos gatos, namorados, maridos, casos e paixões, não são assim. Claro que eles também possuem um mundo interno rico de emoções, sentimentos, sensações, esperanças, tristezas e sonhos. Só que esse mundo interno masculino é sem dúvida um mundo interno, tão interno que não pode ser despertado com um simples, “em que você está pensando?”.

A solução para esse dilema? Nada do que você nunca tenha ouvido antes: paciência, calma, um pouquinho de sangue frio e, o principal, não achar que qualquer silêncio do seu amado seja por causa de você. Se você gosta de despejar seus sentimentos, despeje-os. Você não gosta de poder ser você mesma? Então, seja você e deixe que ele seja ele. 

 

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